fungos, versos e bactérias



Larissa Marques



















































filosofias a parte

sei do que me fere

sei do que me cura

vá-te sem mansidão

rendido à loucura

dos versos apartados

de suas conjunturas

vá-te sem amarras

alforriado de preconceitos

sem luta

ou amargura

do amor nada sei

nunca amei

nem mesmo a mim

que sou essencial

a essa carne que movo

não sei das belezas

nem das grandiosidades

não tenho eixo, nem ética

para comparações


sei apenas

que és meu mal

e minha redenção.













































(fungos)

há o que entre em nós, sem permissão ou regras, mas o que podemos temer se não o que vive no âmago, sem que nos demos conta disso...

























melancolia fúngica


nesse estágio canônico

diria a mim, em segredo

que isso passaria facilmente

mas em meu íntimo sei que não

ele persiste como as horas matutinas

que me entregam ao meu leito

sem vontade alguma de levantar


prolifera mais rápido do que eu possa vencer

me faz voltar a Kierkegaard

me faz voltar à minha dor antiga

à todas as dores antigas vividas

por aqueles que a descreveram tão bem

e sentir deixa de ser apenas sofrimento

para ser privilégio desse ser

que por um tempo soube do amor







pneuma


os pulmões aflitos nunca pediram tanto ato

nunca deram a si tamanha importância

ao mesmo que se jogam à essa mistura 

translúcida de inspiração e sangue


estou convulsa e entregue à tosse

e à doença mágica e incômoda

de sentir falta

daquilo que sei que desconheço


diriam os desavisados que é um atrevimento

de uma pseudo sentir essa bílis

e deixar que ela tome conta desse ser

tão pequeno, tão ignorante


sim, falta-me ar, falta-me interação

com a fragilidade asséptica do hermetismo

mas já não tenho reguladores

que seja o mar, o vinho e o esperma




quase morte de Narciso


seria trágico se não fosse cômico

minha imagem refletida e milhões

de vezes refletida e invertida

replicada dentro desse lago do ser


é o abismo da tristeza, da dor,

quem sabe, da melancolia

que existe em mim 

do ponto que me lembro


quem dera ter o espectro da figura

presa à retina oca e aflita

quem dera ter a mínima lembrança

do que fui em meu auge


transito clonada e perdida

junto aos meus iguais

e perpetro a constância

de não me reconhecer neles




estágio I


não me recordo do dia que nasci

mas creio que foi o dia mais triste

aprender da dor, do apartar

da perda extirpada que é amar


talvez o pântano escuro 

quase silenciosos me desse paz

o afogar flutuante e quase sem peso

do existir cessara ali


o grito rouco de protesto

de nada valeu-me

ainda tento me reencontrar

no âmago de minha mãe


olho inerte para ela e recolho-me

em que parte dela existi?

no desespero, no rasgar das entranhas,

não sei dizer das origens




motim


tenho predileção por pés, mãos e orelhas

não que sejam essenciais ao romance

mas espero que um dia

possa retocar o ângulo perfeito

que já alcançamos na fuga


que os caminhos sejam menos tortuosos

que essas manhãs nubladas de verões extensos

e meus versos frágeis

não derretam diante dos calos de seus dedos

é que trabalha demais


tive preferência pelos vagabundos iluminados

mas eles só atraem meus olhos

enquanto a gana pede

a força de sua boca e verbo

me sugando a fala e os lábios


tenho adoração pelo silêncio

e se faz necessário em horas distantes

mas peço encarecida

que não me entregue a ele

enquanto habitar minhas medidas


não sou de histórias longas

mas preciso delas

e quando cansados, vazios

lembre-se que na maioria das vezes estamos 


e não se esqueça  que tenho predileção 

por pés, mãos e orelhas, pelo ângulo perfeito

da hecatombe vetorial que une nossos sexos

e que  as orelhas pedem mesmo

é sua fala rouca e embrulhada

passeando entre os pelos

de minha buceta











moribundo


se a fase de pequenas devassidões

libera torpe e acalenta espúria 

sê livre agora dos vastos grilhões

e devassa-se seco em náusea e fúria


busca o fundo, um reconciliar

esconderijo para  fuga acalentadora

tranca-se em chaves de esquecimento

ministre-se a paz febril e redentora


esconda-se do que pode ferir

feito quem vê o homem com pena

se compadece dele e tece fala elogiosa

para abrandar o fim que é breve









corte


e quando alcancei a ira

incendiei, sem pensar bem

no que poderia ser

sem ponderar nada


disse-me de grão em grão

as palavras secas

ainda demoram passar

pela goela

mas o papo não está cheio

e temos fome


sorriu enquanto os carros corriam

seu falo não foi nada sutil

ao pousar em minha boca

e insistia como refrão desenganado

engasgado


foi só uma vez, foram milhares de vezes

e ainda me rasga e ainda me corta


poderia contar das jaquetas vermelhas

das janelas azuis, das bitolas de construção


poderia dizer pudica se nossa relação 

não fosse pública, se não derriçássemos a noção


diga que o sonho de água limpa

é cimento e cola sobre essa degradação

não, não, não


é o ódio que lacera as vísceras

e somos apenas vítimas desse maldito 

amor, amor , amor


e meu bem, eu já estou cansada

de explicar as velhas caixas de papelão 

que guardo no sótão

e quero queimar esses pacotes todos

de escrita aflita

e meus olhos embotados 

de amargo e lágrimas.





abnegação


entendo que tudo sucumbe ao fogoquem poderá dizer antiga lamaque habita esse corpotão nobre linho e rasgada famaencobre o pecado sem sorte algumaentregue a homens tortosde olhos ocos sem fortuna


aceito que tudo sucumbe ao fogo

além do vazio da alma 

e do flagelo da carneo silêncio habita no tutano do ossotrazendo caos e fúriapara quem vivia na calma


entendo que tudo sucumbe ao fogovi a salvação em seus olhos mourosque no vazio inerte lambiam meu riso

roubavam meu couro

silêncio, vício e ócio

em nossa camaaceito que tudo sucumbe ao fogo

um corpo ferindo outro

pela luxúria de ambose ambos se deleitam

tecendo fúria e corte pelo prazer do escambo
















palavra vazia


signo avesso e mudo

que os ouvidos se negam

prurido

e deseja abstinência


é fungo e se propaga

















caixa de skinner 


as manhãs são compartimentos hermeticamente fechadosonde não conseguirei o que querocarrego uma subjetiva ogivaem meu estômago que explode nos discursos que vomitoem ouvidos surdos

quem há de me ouvir no frontse todos os símios em linhasignoram o verbo fundoe o sistema está entreguea quem desistiu de revoluçõesfeliz de Che assassinado antese não há um click mágicopara tirar do transe abrir os olhosou desfazer o silêncioa inutilidade da palavra reforçaa frivolidade do verboquis que por detrás de alguma portaexistisse a parte que nos faltase é que nos falta algosomos apenas reféns do excessoautarquia da inérciapregando a sanidade e fotografias austeras e sorridentesnas paredes da sala de estar















sutura I


vendo a cicatriz

que costurada na pele

queloide vazada da carne 

funda e marcada


vendo a chaga viva

na desventura da infecção

carcomendo-se em culpa

travestida de medo


o cancro fede

como a verdade

segue renegada ao ponto

de quase esquecida


não há sutura suficiente

para suportar as feridas

é verbo e arde

na nervura da ignorância




lobotomia I


entrelaçaram a esquizofrenia cênica

no meu nervo óptico

essa viajante espúria 

chamada imaginação

e além de tomar-me a visão

a ingrata tomou-me o cérebro

atingindo a pouca sensatez

que me restava

infeliz eloquente

redimiu-me de pecadinhos tolos

e me deu o maior de todos

não ser coerente











carne


essa mulher apaixonada sucumbe

cada vez mais ao mito morto

ainda pungente

ao deus dos fracos e ao inferno


essa mítica tristeza que aflora

inapta converge para paixão

feito todas as ressurreições

que alegram os crentes


pobre cancro que cresce virulento

desconhece os antibióticos

os banhos de unguento

e sobe aos céus


sentado à direita do espírito santo

enquanto os músculos

se entregam inteiramente

ao gozo da imaginação














































(versos)

palavras soltas numa só constelação, onde o que mais importa é o sentimento e o que menos importa é o sentido































sinfonia


acordes poderiam ser perfeitos

não fosse o desmoronar, luto

e talvez a ausência de encanto

as árvores vão ficando duras

ao ponto de o vento

só poder com suas folhas


nada mais triste 

que a esperança dolente

que sentimentos poupados

especulações


e esse som cheio ecoa

em meu peito vazio

talvez preencham 

por um tempo





a seita dos fracos


para as lágrimas não existe

humores  ou temperamentos

jamais diga: “não temereis”

eu temo,  sou fraca

só se entende da dor

se permite a dor

e mesmo que não permita

que sinta, sente


não tente


o privilégio é saber-se

apaixonada e abandonada

amar é para fanáticos

e é tão lindo ser fraco






império


tanta coisa depende do verso

da espera de milênios pelo verbo

perfeito e perpétuo

mas o esquecimento nos revela

que tudo está fadado a ele


mas a gente continua

de teima, a gente continua

assim como  a significância


eu já quis o infinito

e herdei o império









limites


a cerca de arame velha

delimita as propriedades

alheias à minha

não que não tenha olhos

mas as pernas e a curiosidade

sempre me fizeram pular

quase voar proutros lados

eram as cercas acerca doutras cercas

apanhei e ainda, por isso

por ignorar grades, linhas entrepostos

por  subvertê-los ou não tê-los


perco-me fora de leis








eco das musas tortas


é agora nessa dança tênue

onde homem e suas amantes

tecem pulsantes o mundo

e o material de que são feitos


o gozo se dá nas águas

no inundar de peles e terra

na abundância de feto e fruto

no momento do dilúvio


é a hora de ver o homem

tão livre homem

preso à sua terra

à sua amada







desejo habitar seus olhos

quando for dormir

tenha-me em sua retina

independente de quem acalentar

e seja inteiro, pulsante


sei que nem cabe em mim

tanto querer, mas possua

quem amar e proteger

para que o calor de seu corpo

não se disperse em vão


que o nosso tempo

seja para você o bastante

e no fim ainda queira

com os seus compartilhar


não sei se espero muito

nem se anseio pouco

mal posso expressar

aviso que tenho sua figura

em meus olhos ao me deitar.

musa manca


peitos e olhos juntos

curva da fala

mente


nem sofisticada

nem brejeira

é face confessa


sob a semi-musa nua

toca-me os olhos

rubra


passa como quem soluça

sustenta o ritmo 

quase não


feito pedra d'água

derrete-me

entre dedos


não chora

ou fala

enrubesce.




















musa morta


ele finge para não delatar-see sob a musa seminuao carrasco imperacomo quem sente maisque deveras sentesustenta o soluço quase não














caminho do desespero


trava duelos notívagos

na esperança de ocupar

lugares vagos

ou já ocupados

busca ser algo

revolta-se amarga

é manca


imagem pressentida

sem ter revelações

oferta-se ao nada

não é coisa alguma

borrada de riso falso

desaba no calo 

é farsa


vencida qual animal ferido

declina sob o afã

de ser similar ao que critica

não é coisa nenhuma

seu silêncio é perfeito

antes ter câncer

do que ser-te, cadáver! 




















é agora réstia


você, forasteiro próspero 

sorri em minha tez

deixando supores 

de minha epiderme


um tesão ocre

que reveste o hálito

e os lábios

de quem chora


O gosto da limalha

e da saudade

amarga a boca

antes beijada


atesta sem freio

esse poema obtuso 

que reafirma a soma

de anseios e explora


sua audácia abriu sulcos

e liberou o glacial

da espinha ao córtex

fez-me nave vaga


declínio sob a mão

concreta e leve para tocar

uma resma, uma réstia

uma curva a me guiar


passo rumo ao parto

sutura e corte profano

pacto silencioso em gozo

da sua ilíaca e minha pele.









desvencilha o corte 

sem canduras 

na descoberta do pão-literatice 

força real e utópica de sustento 

não peça nada 

que dessas palavras ao vento 

já não há espera de broto 

semente pedra.

































(bactérias)

são nos pequenos mundos que percebemos que não há magnitude, relativos mundos, relativas dores e eu só penso que tudo é fumaça 























catarse 


de um ser em cacos

que se vê num mosaico espelhado

irreconhecível


poeira na alma

pó nas ventas

não chora, nem ri


enquanto vivo

conjuga o verbo subverter

para subviver.










deusa morta


dormiu e esqueceu o que foipartindo do princípiodo pó ao pónão sonhouoprimiu qualquer coisaque trouxe esperançae sufocou beira-mar.












concretude


a noite que se basta

sobre a madrugada que não espera

para se dar em amor ao dia

é um dia de dor

após um dia de qualquer coisa


um brinquedo jogado

uma encomenda perdida

um abandono de desfavores

verdades bem ditas

à borbulhar numa bacia

transborda de água

panos de gozo e alvejante


o que há além disso

se não posse 

ter tudo que quero

e viver a valsar

como quem borboleteia

com a vontade afogada

em panos puídos

e sabão em pó


o que há além do abandono?


uma e outra árvore

que se desfaz de todas 

as suas folhas


uma quimera selada

na boca de quem não beijei

e jamais


ou só essa espera

que não acalanta

e nem deixa chorar?


porque não me ama?

porque não me amo?

quem é dono da dor?


e assim valsa e canção

na mesma toada triste

desterram os pés sujos

entregues ao trôpego.




















asfixia


quero toda palavra

muda

com falta de ar

manca

toda fedentina

puída


sem vento sangrando

sem voz ou estanca 












borderline, borderline, borderline

prognóstico ou diagnóstico

insulta-me seu silêncio


e tento me convencer que uma hora passa

mas esse tempo esgarça e me importuna

que há de me dizer a posteridade


que as horas foram infiéis comigo

e que me levaram tudo o que quis?

clausuras temporais são minha punição 












das mil vezes que nasci

das milhares que amei

das milhões que perdi


restou-me o pranto

amarrado no peito

o laço na garganta


há ainda um nó

que não desfiz













das mil vezes que morridas expiações 

que me submeteunada me importa mais


esperei meses por sua bocae seu calar me traiuri  e zomba de mimnão me preserva maisdos infinitivos que ameirestou-me o pretéritoconjugado em meu peito


suas mãos

sua ausência e desprezome desgovernam dos milhares de nãoshá ainda seu cheiroque mal me liberteié em mim silêncio, dúvidaamor e caos




















corrupta


aceita interpretações

acata mitos

desbrava linhas

subverte as certezas


delibera intenções

mal obedece ritos

ela não é minha

e traz suas vilezas.












quis um minuto

de olhar aflito

entregue ao extremo


estremeço no dolos 

de faces incompreendidas

no consolo

da angústia tardia

em paisagens disformes

retratadas em papel 

de embrulho


amores brutos

presos à rudeza 

humana

querer aflito

quase nocivo

traz o mal

na luxúria

de fazer bem.



arrancou-me o olho esquerdo 


sei que pedi para ficar só

e colocou a mão debaixo de meu soul

sei que arranquei seu pequeno coração

e seu olho de vidro só refletia o meu


eu já estava suja

ele não era lá essas coisas

mas sei que o fiz chorar

por um tempo transpirou-me Orfeu


nossos nomes eram sinônimos

só queríamos luxúria, caos e dor

roubamo-nos como era para ser

eu e ele, ele e eu


por fim, só por diversão

arrancou-me o olho esquerdo

deixou que apodrecesse

e me devolveu


destino


há uma vírgula no meio de tudo

um senão que nos arrasta

para o talvez

quem dera nos entregasse

sempre ao jamais
















cortejo


quando me perdi no escurode minha viagem ao centrodeparei-me com duas colunasfeito as pedras de Suassunamas não procurem construções lisassão arqueadas e já não buscam o céulascadas convergem-se ao caos velhas,corroídas torres de Babelquando passarem pelo desconhecidona clausura febril do homembusquem as torres de Quintelae lá depositem suas flores.







anistia


as alegorias presas na inércia

sucumbem à letargia

tudo é quieto e confortável

quando presume-se cansaço

mas nada retira-se do breviário


é o desmembrar da quietude

sob a sombra da indiferença

é o descanso que desvela

o apodrecer solitário 

nessa cela


uma mansidão cativa

que não se deu conta

do extinguir da liberdade

ouso dizer de sua inexistência





culpada


ai, amado, é esse seu olhar cheio de fomeque retrata impune o querer incontrolávelos versos com nome que sussurroque mal entendem meu querer inominável


desnuda-me o sentimento corruptodesço de meu andor de barro e culpasem verbos hábeis ou discurso culto

para  adulta hora da quase verdadee o que fazer com issoessa sombra de um dia escuro e tímidofeito um medo incurável e sutil desespero?o que fazer quando me vem a melancoliade querer o amor por perto como ilhae que me some no mar da inquietude?




discurso do tempo


ponteiros tristes flutuam

sobre o sofá da sala

em sentido anti-horário

pairam desistentes

em horas desfeitas


quinze, vinte, ela.

















       


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